ooi. nesse dia sem jogo, tô tentando não pensar em Copa, mas é impossível não pensar no Paraguai. um lugar que costuma aparecer pra gente como fronteira, vizinhança, travessia, notícia, estereótipo, silêncio no mapa, mas toda fronteira tem um lado que canta baixo antes de virar estrada. e foi por esse lado que esta edição começou a se abrir: nem como cartão-postal ou pela ideia pronta de música latino-americana, mas por uma coleção de ruídos, guitarras, fitas, quartos, rádios, calor, poeira e invenção.
Augusto Roa Bastos, um dos maiores escritores do país, dizia que o paraguai é uma ilha cercada de terra. talvez por isso a música de lá soe como quem inventa o próprio mar. é um país que fala duas línguas ao mesmo tempo e mistura as duas numa terceira, o jopará, e que criou há cem anos um gênero inteiro, a guarania, só para poder cantar mais devagar do que o mundo exigia. um país onde as mulheres tecem o ñanduti, um tipo de renda que imita aranheira (a palavra significa literalmente "teia de aranha" em guarani), fio por fio, como quem grava em quatro canais.
tem algo meio emocionante em ouvir um país pelo que ele deixa escapar. uma banda de Coronel Oviedo tentando parar o tempo com guitarras noventistas, sem saber que repete o gesto fundador da guarania. dois irmãos em Assunção gravando psicodelia caseira nos anos 70, num porão, em plena ditadura de Stroessner, quando até o italo disco tocava nas rádios com medo, antes do lo-fi virar linguagem. surf music feita longe do mar, na tal ilha cercada de terra. dream pop com sotaque de cidade pequena, psicodelia de quintal, noise pop terno-barulhento, desses que parecem gravados com o coração encostado no amplificador.
esta edição da Boombop Indica é uma pequena arqueologia afetiva do Paraguai alternativo: escutar o que acontece quando o som vira lugar. o país aparece como frequência: estranha, doce, elétrica, subterrânea. dessas que chegam de lado e ficam ecoando, como uma porta descoberta no meio da parede. ¿jaha? vamos?
Cassette - Como pasa el tiempo (2026)
De onde: Coronel Oviedo, Paraguai
Pra quem curte: guitarras etéreas-reverberadas-noventistas, My Bloody Valentine tocando numa rádio do interior, a necessidade de parar o tempo sabendo que ele não para por ninguém, dream pop de cidade pequena, fotos analógicas desbotando com carinho.
O hit: “No me busques”
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Jodi - Pop espontáneo (1972)
De onde: Asunción, Paraguai
Pra quem curte: mutantes de porão, psicodelia caseira-crua-visionária, um aluno de Stockhausen com um gravador de 8 canais, R. Stevie Moore, fuzz clandestino em plena ditadura, arqueologia de vinil, descobrir que o lo-fi nasceu antes do nome.
O hit: “Loveseller”
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EEEKS - Pet City (2017)
De onde: Asunción, Paraguai
Pra quem curte: surf music sessentista sem mar no horizonte, "la isla sin mar", guitarras que começam na praia e terminam no escuro, new wave-post-punk-shoegaze com sal grosso, Allah-Las depois de ouvir The Cure, dançar olhando pro chão, sessentismo elétrico passado no filtro dos anos oitenta, reverb como ato de imaginação, o lado B do verão.
O hit: “II Novo 60’s"
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The Crayolas - Being There (2018)
De onde: Asunción, Paraguai
Pra quem curte: psicodelia de quintal com guitarras afiadas, fechar os olhos e ver caleidoscópio, tardes quentes derretendo devagar, cantar em inglês sonhando em guarani, cores que ainda não têm nome, Ty Segall de bom humor, o mundo visto através de um vidro colorido, sestas que viram viagens.
O hit: “Sabes”
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paraguanoise - Tierra del Cerro (2025)
De onde: Asunción, Paraguai
Pra quem curte: noise pop lo-fi-terno-barulhento, El Mató a Un Policía Motorizado, Yo La Tengo, distorção como abraço, canções de amor gravadas no quarto, Horsegirl, a fronteira borrada entre Assunção e La Plata, ser jovem e eterno com o amplificador ligado.
O hit: “Secuencia”






que texto dançante <3