Entre 2016 e 2026
cinco discos de cá e de lá. uma escuta sem linha reta.
todo esse papo de 2016 e 2026 me pegou num lugar meio ridículo, que é sempre onde as coisas começam a funcionar. 2016 foi, para mim, um ano em que alguma coisa saiu do lugar e nunca mais voltou exatamente para a estante. comecei a pensar em quem eu era naquela época, no que eu ouvia, no que eu achava que ainda dava tempo de ser, nas versões de mim que ficaram pelo caminho e nessas outras, mais recentes, que continuam se formando enquanto escrevo esta frase. quem serei daqui a meia hora?
dez anos parecem uma medida simples. um número redondo, bonito, fácil de arquivar. mas uma década nunca é uma linha reta entre uma pessoa e outra. é mais parecido com um eco voltando de um tempo onde ninguém mora mais. a lembrança ainda tem corpo, mas já vem em outra temperatura. a gente reconhece alguma coisa e, ao mesmo tempo, percebe que o reconhecimento também envelheceu.
esta edição nasce desse pequeno curto-circuito. em vez de procurar grandes discos de um ano específico ou forçar uma ponte limpa com o agora, escolhi cinco álbuns de cá e de lá que carregam essa poeira em movimento. a ideia não é uma nostalgia-produto, embalada para presente. a minha não vem arrumada. ela range, dobra, mancha, bate e volta diferente. um diferente bom.
hoje, dezesseis não é exatamente um ano, é um jeito de escutar. e vinte e seis, por enquanto, é só uma vontade de ouvir tudo outra vez.
of Montreal - aethermead (2026)
De onde: Athens, Geórgia, EUA
Pra quem curte: ruptura transformada em forma, Kevin Barnes escrevendo no olho da tempestade, tensão emocional virando música sem confessionário fácil, canções íntimas e instáveis tentando reorganizar o que sobrou, urgência de recomeço misturada à melancolia de algo em dissolução, indie rock vulnerável sem suavizar as arestas, guitarras que arranham, melodias procurando chão, beleza no descompasso entre desejo, perda e reconstrução.
O hit: “Already Dreaming”
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Milk Lines - Ceramic (2015/2016)
De onde: Toronto/Montreal, Canadá
Pra quem curte: garage-folk com poeira entre os sulcos, freak-folk dos anos 60 cruzando psicodelia tribal moderna, Gram Parsons encontrando Pearls Before Swine fora do tempo, som lo-fi, trippy, às vezes country, melodias simples e hipnóticas, guitarras que rangem, voz suave, spaghetti western, drone psicodélico e uma ponte torta entre sonho, poeira e realidade.
O hit: “Pellucidar”
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WIDOWSPEAK - Roses (2026)
De onde: Nova York, EUA
Pra quem curte: espaços íntimos e estágios do afeto vistos por uma lente nostálgica e embaçada, o reflexo das velas em vidros vermelhos, amor antigo vestido como aquela camiseta macia, dream pop naturalista e noir, dores profundas aparecendo em gestos mínimos, sons que embelezam a rotina-trabalho-espera-estrada-rotina, algo entre Mazzy Star e Cat Power num roadhouse lynchiano, canções sem poda, frágeis, reais, temporárias e bonitas como aquilo que continua valendo apesar dos espinhos.
O hit: “If You Change”
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Hollow Hand - Ancestral Lands (2015/2016)
De onde: Brighton, Inglaterra
Pra quem curte: psych-folk britânico em baixa voltagem, The Kinks, The Byrds, Love e CSNY passando ali pela janela, instrumentos orientais abrindo uma fresta meio torta, jangle-pop colorido de sol, Inglaterra rural em tarde comprida, pastoral sem cara de cartão-postal, anos 60 menos como citação e mais como cheiro no tecido, disco que cresce de mansinho e fica morando no ouvido, gravação caseira respirando madeira, beleza pequena, orgânica, um pouco fora do lugar, tempo dobrado na escuta.
O hit: “Love and Games”
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John Andrews & The Yawns - STREETSWEEPER (2026)
De onde: Brooklyn, Nova York, EUA
Pra quem curte: um belo piano elétrico antes do café, canções que nascem no intervalo do trabalho e voltam de bicicleta para casa, melodias tortas porque a sinceridade é manca, artistas observando o mundo (lá de fora), psicodelia de bolso, Kevin Morby, folk californiano, parque vazio no fim da manhã, conversas brutalmente honestas, sentar à beira de um rio, frio com sol, coração aberto sem alarde, Woodsist, gente que te ajuda a carregar a poeira do dia a dia sem parecer pesada.
O hit: “Friends in Misery”
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